Pois bem, como prometido. Essa estréia tão aguardada, tão esperada (pelo menos para mim :D) finalmente se torna realidade. E não podia ser numa data melhor. Além de ser uma estréia dedicada a um dos shows mais bacanas que a cidade já viu, é também (e principalmente) especial por ser o dia em que eu completo um ano de namoro, um ano ao lado da pessoa que eu amo e admiro, e que me faz feliz de uma maneira que eu nunca estive. E que mesmo estando alguns milhares de quilômetros distante, e ainda o ficará por um bom tempo, exerce sobre mim o poder de amá-la mais e mais a cada dia. E a idéia desse diário, que eu espero que dure por um longo tempo ainda, é fruto de todo o apoio que dela eu recebi durante esses 365 dias, me levantando quando eu estava a cair e me incentivando a continuar.
Introduções à parte, eu vim aqui para dizer que música, quando é digna de ser chamada assim, se eterniza e dura o tempo que durar o mundo. São poucos os estilos que conseguem essa façanha. E graças a Deus alguns deles ainda possuem representantes vivos que nos permitem degustar a fina flor do som em apresentações presenciais de alta qualidade. Principalmente hoje em dia onde predomina o o sultanato das músicas enlatadas e das vozes made by software. É deprimente se dar conta de que o artista do CD, no fim das contas, não é o mesmo que aparece no show. E os exemplos estão aí disponíves às baciadas, não é preciso procurar muito. Mas isso é a minha opinião e ela vai bem além. Eu tenho um assumido preconceito musical e realmente me irrita essa cultura dos ídolos meteóricos produzidos
in vitro, em escalas industriais e com técnicas artificiais.
E eu, como também sou um amante do bom Rock'n Roll e cresci ouvindo ídolos de épocas passadas, mas que se enraizaram profundamente na minha alma, levo a crer que essa tendência de
reunions de grandes bandas que vem ocorrendo ultimamente só pode ser uma espécie de contra-ataque dos velhos dinossauros contra todo esse lixo que se nos apresenta nos dias de hoje. Uma verdadeira insurreição contra esse sistema, no melhor estilo rebeldes do Rock, para mostrar ao mundo como é que se faz música de verdade. Já dizia o Faustão, quem sabe faz ao vivo.
Posto isso, chegamos à parte principal desse primogênito post: o show do The Police no Rio de Janeiro, nesse abençoado dia 8 de dezembro de 2007. Vou me eximir de relatar aqui a biografia da banda, pois todos os jornais, revistas e sites especializados e não especializados já se encarregaram de fazê-lo nas últimas semanas, e fico então apenas com o relato de alguém que esteve presente e observou como é que se tira o pica pau do oco, musicalmente falando.
Há algumas semanas atrás eu decidi que iria investir meus poucos caraminguás num ingresso para ver o The Police. Como eu já tinha perdido o show do Roger Waters no início do ano e esse mês entrou um dinheirinho a mais, eu resolvi que não ia perder mais um grande evento e me arrepender para o resto da vida. O Waters eu já tinha assistido em 2002 (aliás, só isso é assunto para muitas linhas), realmente não foi muito problema ter faltado ao segundo show. Mas, perder o Police, mesmo considerando que eu nuca fui fanzão de carteirinha da banda, não era exatamente o meu plano. Até porque, a perspectiva deles aparecerem novamente no Brasil em um futuro próximo não é das mais animadoras. De qualquer forma, separei o dinheiro antes que ele acabasse para não arriscar ficar sem um ingresso. Comprei cômodamente aboletado na minha cadeira, pela internet. E no dia 7 estava eu na fila do portão 21 do Maracanã para buscá-lo. Aproximadamente uma hora de espera, debaixo de uma chuva bem razoável. O show teria que valer muito a pena, para compensar o estado de pinto molhado em que eu fiquei. Um garoto de não mais do que 10 anos passou umas 50 vezes do meu lado vendendo capa de chuva, como a me tentar a sucumbir à tentação. Mas, orgulhoso que sou, resolvi encarar a chuva do jeito que estava (já estava todo encharcado mesmo). Após esse périplo, com o ingresso na mão, voltei orgulhoso para casa.
E ontem, no grande dia, eu preparei o meu kit show, constituído de chave de casa, carteira, celular, relógio, ingresso e uma roupa já não muito nova, pois eu estava indo cantar e pular (portanto, suar bastante), e não a um casamento. Peguei o ônibus (sim, fui de ônibus pois estacionar em um lugar bom e depois sair do local do show é uma façanha só alcançada após muito tempo de busca e, ao final, espera na fila) às 19:55h (sim, atrasado para o show de abertura) e, 25 minutos depois eu estava saltando na porta do Maracanã, em frente à estátua do Bellini. Não fosse um acidente no meio do caminho e eu teria chegado em 10 minutos. Esse um ponto digno de nota. Apesar da grande movimentação de pessoas e carros no entorno do estádio, não havia engarrafamento em sentido nenhum do trânsito na região. A chegada foi absolutamente tranquila, não havia fila nem confusão para entrar no estádio, estava bem organizado e o povo ajudou. Depois de passar pela roleta fui andando até achar a melhor entrada para a arquibancada. No meio do caminho ainda encontrei com um professor da faculdade. Como eu passei na matéria dele o encontro foi tranquilo e sem maiores percalços. Quando eu finalmente adentrei o anel superior, na parte ocupada pela torcida do Flamengo nos dias em que o gigante Mário Filho assume seu papel original, já eram 20:30h, e o Paralamas do Sucesso esquentava o público para a grande atração.
Aqui cabe um adendo. Nessa altura do campeonato a arena já estava com uma lotação razoável. O gramado estava praticamente ocupado, e as arquibanca e as cadeiras também apresentavam bastante gente. Gente que estava ali para assistir ao The Police. Quem chegasse desavisado ali naquele momento, sem saber o que iria ocorrer dentro de uma hora, acharia de imediato que era um show do próprio Paralamas. Herbert, Bi e Barone, executando com imensa maestria clássicos como Que País É Esse, Algados, Óculos, Lanterna dos Afogados, levantaram a platéia. Deu gosto de ver eles se esmerando no palco, numa apresentação impecável, enquanto o pública cantava junto as músicas, pulava, batia palma, gritava e entrava no clima de grande festa que estava rolando ali. O show deles, que tinha começado às 20h em ponto, terminou pouco antes das 21h.
Nesse ínterim deu tempo para jogar sinuca e submarino no celular, acompanhar as nuvens para ver a meteorologia tinha acertado mesmo ou se era só pitaco, e acompanhar a movimentação do público que chegava.
Às 21:30h em ponto, cravado, sharp, as luzes do Maraca se apagaram por completo. No sistema de som começou a tocar Get Up, Stand Up do Bob Marley. Se fez um espocar frenético de flashes no meio da multidão, com o palco ainda apagado. Nesse tempo todo o gramado já estava tomado, com apenas um espaço em branco no lado esquerdo, que foi quase completamente preenchido ao longo do início do show. As arquibancadas e cadeiras também receberam público ao longo dos primeiros 30/40 minutos da apresentação, ficando vazios bem pronunciados apenas nas pontas de ambos os espaços. Eu acabei ficando na diagonal do palco. Tinha uma torre de som pela proa, mas consegui me posicionar de maneira que conseguia enxergar a maior parte do "altar". Já sabia que, pela distância, eu mal ia conseguir distinguir as cores dos instrumentos, mas ter isso era um consolo por estar longe. De qualquer forma, os telões estavam aí para amenizar esse problema. Logo que aquele reggae de qualidade se encerrou, imediatamente entraram os primeiros acordes de Message in a Bottle, junto com o aparato de iluminação. A multidão deu início ao delírio coletivo e naquele momento o templo maior do futebol assumiu a sua vocação mais moderna e tão importante quanto, a de templo do Rock. Sting, Stewart Copeland e Andy Summers assumiram o papel de deuses e levantaram a platéia. O Maraca tremeu!! Depois da segunda música eles fizeram uma pausa e o Sting conversou um pouco com a platéia. Em um português bem apresentável, diga-se de passagem. Ele cumprimentou a todos, perguntou se queríamos cantar e mandou todo mundo levantar as mãos para iniciar Walking on the Moon e dar prosseguimento ao ritual.
É de se destacar a presença de um público bem heterogêneo. Jovens bem jovens, jovens nem tão jovens e não-jovens se misturavam. Música boa não tem idade, é isso aí. Aliás, já na fila para apanhar o ingresso, estavam na minha frente dois rapazes e uma menina. Os três cursando o ensino médio ainda, aguardando na fila para garantir lugar no show de uma banda que estourou quando eles ainda nem sequer pensavam em nascer. E eu acho que a essência é essa. Música boa não sai de moda, vai haver sempre alguém para escutá-la, independente dela ter 2 meses ou 30 anos de existência.
Eu sou suspeito para falar, porque gosto muito do Police. Não é minha banda favorita, não está nem entre as cinco primeiras, mas as músicas tem uma pegada que é difícil não gostar. O que me faz ter na cabeça ainda as letras de meia dúzia delas, apesar de não ouví-las com freqüência já há alguns anos. E realmente não dá para ser imparcial num momento desses. O show foi sim, sensacional! Ouvir ali ao vivo os clássicos que você conhece apenas do LP/CD ou do rádio, que marcaram gerações, é realmente difícil de não gostar. E a qualidade dos músicos faz isso ser ainda mais prazeroso. O Sting sabe como conduzir os fãs, sabe quando incentivar, sabe quando alongar ou encurtar os vocais, sabe quando repetir um refrão. Ele teve o nosso controle durante toda a noite. Não bastasse isso, a pegada dos três mosqueteiros do rock continua sensacional. Nem parece que eram quase senhores de idade tocando em cima daquele palco. Pareciam mais três jovens em início de carreira, se apresentando com um entusiasmo fora de série. E, apesar de todos os alertas, eles estavam de bom humor! Sting era o mais sorridente, mas o Copeland e o Summers também distribuíam sorrisos parecendo que estavam mesmo se divertindo com aquilo tudo. E foi assim até o final, sem esmorecerem um segundo.
O som estava bem ajeitado, porém, nada de excepcional. Mas o que valeu mesmo foi ter a certeza de que a voz do Sting continua uma pérola. Trinta anos depois, e ela ainda canta praticamente como nos primeiros álbuns, e isso sem recursos de software... aliás, é sempre um deleite poder ouvir no show aquele som limpo, afinado e com andamento perfeito que você está acostumado a escutar nas músicas gravadas em estúdio. Você sente que a gravação nada mais é do que uma mera formalidade, que os caras tocam é muito bem mesmo em qualquer situação. Mesmo levando-se em conta que nessa turnê as músicas estão sendo executadas com um andamento ligeiramente diferente das originais. O que, a meu ver, não tira a qualidade das composições. Eles estão tocando um pouco mais lento, sim, porém, sem prejuízos para quem conhece e curte o som. Até poque o andamento diferente não atrapalha a pegada, que continua forte. Além desse detalhe eles esticaram a maioria das músicas, dando espaço para passagens solo dos três músicos com os seus respectivos instrumentos, além de longos trechos em que se sobressai a unidade do conjunto, numa harmonia alucinante. Isso também dá a chance ao Sting de incluir dezenas de vocais, repetir trechos das músicas e "improvisar" em cima do feijão com arroz que todo mundo conhece.
Para mim, os destaques: o início com Message in a Bottle; Every Little Thing She Does is Magic; De Do Do Do, De Da Da Da; em Invisible Sun os telões começaram a passar imagens coloridas de crianças do mundo inteiro, enquanto os takes da banda no palco apareciam em preto e branco. Ficou bacana demais mesmo. E a seqüência I Can't Stand Losing You - Roxanne - King of Pain e So Lonely, que fechou a primeira parte do show. Aliás, Roxanne foi
A música da noite. O Maracanã cantou inteiro junto com Sting, tudo tremeu com as quase 80 mil pessoas pulando. E, claro, não podia deixar de ser, o clássico Every Breath You Take. Tirando as músicas menos conhecidas que não empolgavam muito o público, a tônica do show foi essa: pessoal gritando, pulando, batendo palma, cantando. Um coro de 80 mil vozes. De arrepiar qualquer um...
Foi mais um daqueles eventos para ficar na história e confirmar a tradição do Rio de Janeiro de ser o lugar onde os show são sempre mais animados, mais emocionantes e mais sensacionais (corroam-se de inveja, extraterrestres!!).
A noite infelizmente tinha que terminar e pouco antes das 23:30h a carruagem virou abóbora novamente e deixou todo mundo com gostinho de quero mais. A saída ocorreu também sem tumultos, apenas ficando complicada para quem passou de carro pelas redondezas, pois o povo acabou tomando as ruas de assalto em direção aos seus meios de transporte. Eu caminhei tranquilamente até um ponto de ônibus para aguardar a minha Mercedes com motorista e, após ela chegar, em 10 minutos eu estava novamente em casa. Feliz, com certeza!!
E não, eu não levei nenuma câmera. De ônibus a gente não pode dar sopa pro azar. Foi uma pena, porque daria para ter feito algumas imagens muito bacanas.
De qualquer forma, fica aí a prova do crime

E, se você leu até aqui, peço minhas sinceras desculpas pelo tamanho disso aqui e prometo que na próxima vez eu irei me comportar e não escrever tanta coisa desse jeito.