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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Penso, logo não durmo

Bom dia, Rio de Janeiro!

Ter muitas idéias na cabeça é uma benção, mas às vezes se torna uma desvantagem. Uma delas é passar a noite em claro. Esse detestável comportamento da minha mente anda se tornando frequente na medida em que as idéias para 2008 vêm se acercando do meu cérebro. E essa foi uma noite de pensamentos profundos, o que me levou a pular da cama antes do sol raiar, procurando adiantar tudo o que a cabeça já havia realizado alguns milhares de sinapses atrás.

De qualquer forma, entre brigas com um html teimoso e com o Photoshop, aproveito para escrever aqui e tirar um pouco da poeira. Juro que daqui pra frente eu vou começar a acertar a assiduidade disso aqui e não deixar mais acontecer esse vácuo entre postagens.

Para não ficar só isso, eu esses dias tava olhando o meu antigo blog e me deparei com o texto abaixo, retirado de um artigo no site da BBC de Londres ano passado (numa busca rápida pelo site eu não achei o artigo original, mas recomendo aos interessados que o façam com mais calma):

"Dear Daddy,

I am going to tell you about my VE Week, it was such a pity you could not be home.

There were long tables set up down the middle of the street, and everything you could have wished for was on the tables; lemonade, cakes, sponges, chocolate cake, chocolate biscuits, bread, fancy cakes and more."

O trecho é de uma carta escrita por uma inglesinha de oito anos de idade ao seu pai, militar da Royal Air Force que ainda se encontrava além-mar, contando a ele como foram as comemorações do VE Day (Victory in Europe Day - Dia da Vitória na Europa), que acabara de acontecer (8 de maio de 1945), praticamente selando o fim da Segunda Guerra Mundial. A Europa não mais se curvava ao regime das bombas (apesar da Ásia ainda estar em beligerância) e a normalidade finalmente poderia ensaiar o seu retorno ao velho continente. É interessante salientar os itens que a menina cita: as coisas mais banais, mais corriqueiras, eram naquele momento a realização de um sonho de anos. Imaginem vocês que guloseimas tão simples quanto limonada, bolo de chocolate e pão eram o que poderia se considerar um banquete dos deuses. Isso num país que, apesar de sistematicamente atacado e sofrendo das privações do conflito, nunca esteve ocupado pelo inimigo. Fica-se imaginando então, aqueles que tombaram sob o terror nazista...

Muita gente por aí vê apenas inutilidade em se ficar lembrando e rendendo homenagem a esses episódios. Muita gente acha que falar de Segunda Guerra é retrô e demodê, principalmente aqui para os lados calientes dos trópicos. É fácil para quem não teve a carne marcada, rejeitar essas lembranças, declarar laconicamente que "não foi comigo...". Mas trazer regularmente à tona os detalhes, as lembranças e as nuances do maior conflito que o mundo já presenciou tem um simples e importantíssimo objetivo. Nas palavras de um veterano inglês que, 40 anos depois, visitou um lugarejo na Holanda por onde ele havia passado, e onde anualmente as crianças depositavam flores em cada uma das quase 2000 sepulturas do cemitério local que abriga os restos mortais de soldados que ali tombara: "They were tought to never forget". Exatamente isso: não se pode nunca esquecer do que ocorreu. Aqueles que presenciaram a barbárie, esses nunca esquecerão mesmo. Ela está marcada a ferro e fogo na memória dessas pessoas que viram de perto as balas de metralhadora, os torpedos e as bombas; os petardos dos canhões, as minas terrestres e as granadas. Não cito "a face do inimigo" pois essa, na maioria das vezes, era igual às de quem as via, com as mesmas preocupações, os mesmo medos e as mesmas expectativas. Converse com alguém que esteve lá, e você verá que, seis décadas após o término do inferno, as imagens e sensações continuam fixadas nos olhos e na mente tão vivas como se tivessem sido forjadas minutos antes. Procure quantos você quiser, e tantas vezes você irá se dar conta disso. Esses sim, nunca irão esquecer o que ocorreu. Levarão com eles para a sepultura todos os minutos vividos naqueles conturbados momentos. Os que devem aprender a não esquecer, esses somos nós. Nós temos obrigação de conhecer isso, saber que foi horrível e que nada justifica aquelas trevas. Unica e exclusivamente para que isso nunca, nunca se repita novamente.


Fica aí a reflexão...

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